quarta-feira, 30 de novembro de 2022

A ECONOMIA AÇUCAREIRA NO BRASIL COLÔNIA

  O início efetivo da colonização do Brasil está relacionado ao plantio da cana-de-açúcar, espécie originária da Índia, trazida pelos portugueses a partir da década de 1530. A lavoura canavieira demandava mais investimentos do que a extração do pau-brasil. Além disso, para produzir açúcar era necessário trabalho constante. Por isso, colonos portugueses começaram a se fixar na América.

  A cana-de-açúcar foi amplamente explorada, sobretudo no território correspondente ao da atual Região Nordeste. A produção açucareira se organizou principalmente nas proximidades de Recife e Olinda, em Pernambuco, e em Salvador e Recôncavo Baiano, na Bahia, causando impactos significativos na vegetação nativa, especialmente  na Mata Atlântica.

  A lavoura açucareira ocupou grande parte da terra agricultável na faixa litorânea, forçando os indígenas que lá viviam a migrar para o interior e o norte do território. A abertura de campos de cultivo era feita com a derrubada e a queima da mata nativa.

  Parte da madeira derrubada era utilizada para a construção das instalações de engenhos. Faziam parte dessas instalações, além da plantação, as estruturas necessárias à moagem da cana e à produção do açúcar, a residência do senhor de engenho (conhecida como casa grande), o alojamento dos trabalhadores, a maioria escravizados, e, muitas vezes, uma capela.

Representação de indígenas carregando o pau-brasil

  Outra parte da madeira era usada para alimentar as fornalhas, nas quais o caldo de cana era cozido e convertido em melaço, que era transformado em açúcar. O consumo de lenha nunca parava, pois ela também era utilizada para cozinhar os alimentos consumidos cotidianamente no engenho.

  Além da lenha, outro recurso natural era importante na produção de açúcar: a água. Nas propriedades maiores e mais ricas, chamadas engenhos reais, usava-se a força da água para movimentar as moendas, nas quais a cana era processada. Nos engenhos menores, conhecidos como engenhocas ou trapiches, eram usadas juntas de bois para fazer esse trabalho.

  A vida nos engenhos também demandava a produção de alimentos e a criação de animais, sobretudo gado bovino. Para realizar essas atividades, usava-se a água para a irrigação e para o consumo (humano e animal). Além disso, o solo acabava desgastado devido a métodos de cultivo inadequados e às pastagens.

Engenho de açúcar em Pernambuco colonial, pelo pintor holandês Frans Post (século XVII)

O ciclo do açúcar

  O ciclo do açúcar, também referido como ciclo da cana-de-açúcar, foi um período da história do Brasil Colônia compreendido entre meados do século XVI e meados do século XVIII. O açúcar representou a primeira grande riqueza agrícola e industrial do Brasil e, durante muito tempo foi a base da economia colonial.

  O ciclo do açúcar teve início em 1516, quando a cana-de-açúcar foi introduzida na ilha de Itamaracá, litoral de Pernambuco, pelo administrador colonial Pero Capico. Com a criação das capitanias hereditárias, Pernambuco e São Vicente despontaram na produção açucareira, sendo esta última sobrepujada pela Bahia após a implantação do governo-geral.

  As plantações ocorriam no sistema plantation, ou seja, cultivo de um só produto agrícola em latifúndios. Sua produção era destinada ao comércio externo, e tinha como principal destino o mercado europeu.

  O Nordeste brasileiro foi a região que mais se desenvolveu o cultivo da cana-de-açúcar devido a vários fatores, como: proximidade com a Europa, clima quente e úmido, e o solo de massapê.

Olinda foi o local mais rico do Brasil Colônia devido ao cultivo da cana-de-açúcar

A sociedade açucareira

  Os engenhos eram bem mais do que os locais onde se produzia o açúcar para exportação. Eram espaços onde as relações sociais se desenvolviam e onde acontecia a maioria das celebrações e das festividades da colônia. Neles conviviam o senhor de engenho, sua família e agregados, além de trabalhadores livres e escravizados.

  Os senhores de engenho, no geral, faziam parte da pequena nobreza lusitana ou integravam a administração metropolitana e formavam a aristocracia da colônia. Isso, porém, não significava que eles levassem uma vida luxuosa. Na maioria dos engenhos, as condições de vida eram muito simples. Na residência da maioria dos senhores de engenho, o chão era de terra batida e havia poucos móveis e utensílios - as roupas e os demais produtos manufaturados eram caros, pois eram importados da Europa.

Antigo Solar de Megaípe, casa grande do Engenho Megaípe, em Jaboatão dos Guararapes (PE)

  Na sociedade açucareira, haviam alguns trabalhadores livres que exerciam atividades especializadas nos engenhos em troca de salário, como o mestre de açúcar, responsável pela qualidade do produto, e o purgador, que administrava o processo de clareamento do açúcar. Além disso, haviam muitos lavradores que não possuíam engenho. Parte deles cultivava a cana em suas terras e negociava com os senhores as condições para moê-la nos engenhos. Outra parte arrendava as terras de um senhor e era obrigada a moer a cana naquele engenho e a entregar ao senhor uma parcela de sua produção.

  Nos primeiros engenhos montados, era utilizada apenas a mão de obra indígena. No entanto, com a ampliação das atividades, os portugueses passaram a explorar principalmente o trabalho de africanos escravizados, que, desde então, foram trazidos em grande escala para a colônia. Os escravizados trabalhavam em todas as fases do processo de produção dos engenhos, do plantio e do corte da cana ao transporte do açúcar. Os locais em que viviam, chamados senzalas, eram precários e pouco ventilados. Eles eram obrigados a trabalhar por longas horas, recebiam pouca alimentação e estavam sujeitos à violência, incluindo castigos físicos.

  Nessa sociedade, marcada pela grande propriedade agroexportadora e pela escravidão, os recursos naturais disponíveis eram considerados abundantes e foram intensamente utilizados, sem preocupação em conservá-los. Com o esgotamento de uma área, ocupavam-se outras, ampliando a devastação.

Casa Grande, Senzalas e Armazéns

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ANDRADE, Manuel Correia de. Espaço e tempo na agroindústria canavieira de Pernambuco. São Paulo: Estudos Avançados, n. 15, v. 43, 2001.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

GOMES, G. Engenho & arquitetura: tipologia dos antigos engenhos de açúcar de Pernambuco. Recife: Fundação Gilberto Freyre, 1997.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

OS SÍMBOLOS DO JARDIM JAPONÊS

  Tranquilidade, paz e harmonia com a natureza são elementos presentes na cultura do povo oriental. No corre-corre diário, muitas pessoas recorrem a lugares calmos e tranquilos como uma espécie de refúgio. Os jardins fazem parte  da cultura do Japão e constituem uma significativa manifestação artística. O jardim japonês expressa a essência da natureza em um espaço restrito e repleto de simbologias e misticismos.
  Simples e deslumbrantes, os jardins japoneses, mais do que uma simples técnica de paisagismo, são frutos de uma das modalidades artísticas mais sublimes da cultura oriental. Feitos para conduzir naturalmente seus visitantes a um estado de meditação, calma e espiritualidade, esses jardins incorporam elementos simbólicos e naturais, de forma a estabelecer uma harmonia perfeita com o entorno.
  Em um jardim oriental, os aspectos visuais, como a textura e as cores, são menos importantes do que os elementos filosóficos, religiosos e simbólicos. Estes elementos incluem a água, as pedras, as plantas e variados acessórios.
Jardim Ritsurin, em Takamatsu, Japão
  Dentre os principais símbolos do jardim japonês, estão:
  • Lanterna de Pedra (Toro)
  A pedra possui vários significados: um monte, uma montanha, a família, entre muitos outros. O Toro é uma lanterna japonesa feita de pedra, madeira ou metal, tradicional do Extremo Oriente. Na China, os espécimes existentes são muito raros, e na Coreia não são tão comuns quanto no Japão, onde foram originalmente utilizados em templos budistas para iluminar os caminhos.
  Durante o Período Heian (794-1185), passaram a ser usados em santuários xintoístas e em residências privadas. Seu significado é a iluminação da mente de quem percorre o jardim, induzindo à concentração. Os pontos de luz são estrategicamente distribuídos para não ofuscarem a visão. Todas as lanternas têm os mesmos elementos básicos: telhado grande, um compartimento aberto e três ou quatro pernas, a simplicidade fica por conta da textura rústica da pedra.
Toro do Castelo Himeji, em Himeji, na província de Hyogo, Japão
  • Lago com carpas (Koi)
  A água simboliza a purificação; reflete a imagem induz as pessoas a enxergarem a si mesmas; o som suave que emite ao passar entre as pedras estimula a reflexão.
  As carpas, além de conferir cor e movimento ao jardim, são símbolo de fertilidade e prosperidade; admiradas pela capacidade de nadar contra a correnteza, são verdadeiro símbolo de determinação e superação de obstáculos. Seu colorido adiciona movimento ao jardim.
Lago com carpas no Museu Ojiya, em Ojiya, província de Niigata, Japão
Fonte (Tsukubai)
  No Japão, um tsukubai é uma pia fornecida na entrada de locais sagrados para que os visitantes purifiquem-se pelo ritual de lavar as mãos e pelo enxágue da boca. Esse tipo de ritual de limpeza é o costume para convidados participando de uma cerimônia do chá ou visitando uma área de templo budista. O nome origina-se do verbo tsukubau, que significa "curvar-se", um ato de humildade.
  Os tsukubai são geralmente de pedra e normalmente fornecidos com uma pequena colher, deitada acima, pronta para uso. O fornecimento de água é fornecido através de um tubo de bambu, chamado kakei.
  O bambu enverga-se ao vento, mas não quebra;  sugere assim o comportamento que deveria ser copiado pelos seres humanos: adaptação a situações difíceis sem se deixar vencer.
Tsukubai, em Ryõan-ji, Kyoto, Japão
  • Cascata com pedra
  A cascata fica localizada no centro do jardim. A cascata, além de oxigenar a água, significa, também, a continuidade da vida. E como a vida, ela segue um ciclo representado pela intensidade da água. O fluxo da água simboliza o nascimento, o crescimento e a morte: desde as ondas até um simples murmúrio de água correndo.
  A posição das pedras, geralmente em números ímpares, são uma analogia da formação do homem e da sociedade: a princípio estamos sós, depois em grupo (como pai, mãe e descendentes). A pedra colocada em posição vertical representa o pai, e na horizontal a mãe. As outras pedras simbolizam os descendentes, sendo estas distribuídas em torno do lago.
Yoshikien Jardim, em Nara, Japão
  • Pontes
  Todo jardim japonês precisa de ao menos uma ponte de madeira para relaxar, apreciar as belezas e ver as carpas. As pontes também podem simbolizar a transição do mortal para o sagrado.
Jardim Hamamrikyu, em Chuo, Japão 
  • Plantas
  Todo jardim precisa de plantas. No Japão não pode faltar um bonsai ou uma flor de lótus, que é bastante icônica no Japão. Árvores que desabrocham na primavera e ficam vermelhas no outono, são um dos grandes destaques nos jardins japoneses.
Jardim Sankeien, em Yokohama, Japão
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
ATLAS National Geographic. Ásia I; Ásia II. São Paulo: Abril, 2008. v. 7; v. 8.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

A PRIMAVERA DOS POVOS

   Dá-se o nome de Revoluções de 1848 ou Primavera dos Povos uma série de revoluções na Europa Centro e Oriental que eclodiram em função de regimes governamentais autocráticos, de crises econômicas, do aumento da condição financeira e da falta de representação política das classes médias e do nacionalismo, despertado nas minorias da Europa central e oriental, que abalaram as monarquias europeias, onde tinham fracassado as tentativas de reformas políticas e econômicas.

  Este conjunto de revoluções, de caráter nacionalista, liberal, socialista e democrático, foi iniciado por uma crise na França, e foi a onda revolucionária mais abrangente da Europa, embora em menos de um ano, forças revolucionárias tenham retomado o controle e as revoluções em cada nação tenham sido dissipadas.

O início das revoltas

  Ao fim dos anos 1840, a sociedade europeia  encontrava-se em plena ebulição, com as chaminés e a pobreza do mundo industrial alastrando-se rapidamente pelas paisagens urbanas do continente, ao mesmo tempo que desmoronava o mundo dos reis absolutos.

  O suspiro final do Antigo Regime havia começado em 1815, com a derrota de Napoleão Bonaparte e a propagação pela Europa de um movimento de restauração do poder dos reis. A onda reacionária vinha impulsionada pelo Congresso de Viena e pela Santa Aliança, responsáveis por reconduzir ao poder antigas dinastias, sustentada exclusivamente pelos princípios absolutistas.

  Esse ímpeto conservador não se sustentou por muito tempo, perdendo força para uma sociedade ansiosa por maior participação política e controle do Estado. Ao longo dos anos 1820, já se multiplicavam instabilidades e conflitos pelo continente, como as revoluções liberais na Espanha e em Portugal.

A liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix, 1830 (óleo sobre tela, 260 cm x 325 cm), concebida para enaltecer o movimento revolucionário de 1830, na França

  Em 1830, a contestação ao absolutismo ganhou maior vigor, com a eclosão de um movimento revolucionário na França. Naquele país, o cenário político havia regressado ao controle de antigas elites capitaneadas pela nobreza, com forte restrição à participação popular.  Essa conjuntura se mostrou bastante frágil diante de uma forte crise econômica, que o governo resolveu enfrentar com o aumento de impostos, acirrando ainda mais o descontentamento popular.

  Para sufocar os opositores, o governo tomou atitudes dentro dos padrões absolutistas, com a dissolução da câmara dos deputados, a imposição de limites à imprensa e a restrição ainda maior ao direito do voto. A população reagiu, tomando as ruas de Paris, o que fez o rei fugir assustado. O governo seria ocupado então pelo rei Luís Filipe, com o apoio da burguesia, alarmada com a intensa participação popular.

  O clima revolucionário acabou por se estender por outros locais da Europa, como Bélgica, Polônia, norte da península Itálica e Confederação Germânica.

Onda revolucionária na Europa (1830)

As revoltas de 1848

  Ao longo dos anos seguintes, o ímpeto revolucionário diminuiu na Europa, para retornar com todo vigor em 1848, quando as populações de diversos países estavam desgastadas por outra crise econômica. A nova onda começou novamente na França, onde a sociedade enfrentava problemas na agricultura, com péssimas colheitas e aumento do preço dos alimentos.

  Nas cidades, a situação mostrava-se crítica com altos índices de desemprego e baixos salários, com os problemas atingindo inclusive setores privilegiados da sociedade. A situação incentivou a formação de forte oposição, que incluía desde industriais, que sofriam com a concorrência inglesa, até operários, afetados pelo desemprego e pela carestia.

  Temendo a ação popular, o governo adotou medidas repressivas, limitando a atuação da imprensa e as reuniões públicas. Para driblar as proibições, os opositores lançaram a campanha dos banquetes, evento convocado para homenagear o rei, mas que servia mesmo para inflamadas manifestações contestatórias. A repressão do governo a um desses eventos foi o estopim para uma ampla revolta popular, com as ruas de Paris sendo novamente tomadas por barricadas, levando o rei a renunciar ao poder.

Barricada na rua Soufflot. O Panteão é mostrado em segundo plano

  Um governo provisório assumiu o comando do país, e a monarquia foi substituída pela república. Para a população, prometiam-se maior participação política e adoção de medidas para diminuir a pobreza e o desemprego. As ações do novo governo, porém, mostraram-se insuficientes para conter a revolta popular. Pior, as autoridades adotaram violenta repressão: estima-se que mais de 10 mil opositores perderam a vida e cerca de 4 mil homens foram enviados ao exílio.

  Em dezembro de 1848, Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão, foi eleito presidente com o apoio de vários setores da burguesia e de grande parte dos segmentos populares da sociedade. Em 1851, ele deu um golpe de Estado e instituiu um governo hereditário.

  O movimento revolucionário francês, como nas vezes anteriores, iria se irradiar por diversas partes da Europa, atingindo locais como Espanha, Áustria, Península Itálica e Confederação Germânica. O absolutismo, com isso, deixaria de ser hegemônico no continente, de uma vez por todas.

Onda revolucionária na Europa (1840)

REFERÊNCIAS:

BARBOSA, Mariana de Oliveira Lopes. "Primavera dos Povos". Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/primavera-dos-povos.htm. Acesso em 22 de novembro de 2022.

https://vestibular.uol.com.br/ultnot/resumos/primavera-dos-povos.jhtm. Acesso em 22 de novembro de 2022.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

BUTÃO: O PAÍS DA FELICIDADE

  Butão, oficialmente chamado Reino do Butão, é um país asiático localizado no sul do continente, entre a China e a Índia. A sua capital é Thimphu, e seu território não possui saída para o mar. O território de Butão apresenta como principal feição de relevo a cordilheira do Himalaia, que se estende a oeste e ao norte do país, condicionando a presença de terrenos bastante elevados e acidentados, além de uma diversidade climática.

  É um dos países menos populosos da Ásia, com uma estimativa de população para 2022 de 853.557 habitantes, a maioria dos quais vive na zona rural. O setor primário, com destaque para a mineração, e a indústria desempenham um papel importante na economia do país, em conjunto com a energia hidrelétrica, tanto utilizada no território nacional, quanto exportada para a Índia.

Mapa do Butão

HISTÓRIA

  A história política do Butão está intimamente ligada à sua história religiosa e as relações entre as diferentes escolas monásticas e mosteiros. A tradição situa o início da sua história no século VII, quando o rei tibetano Songtsen Gampo construiu os primeiros templos budistas nos vales de Paro e de Bumthang. No século VIII, é introduzido o budismo tântrico pelo Guru Rimpoché, "O Mestre Precioso", considerado o segundo Buda na hierarquia tibetana e butanesa.

  Os séculos IX e X são de grande turbulência política no Tibete e muitos aristocratas vieram instalar-se nos vales do Butão, onde estabeleceram o seu poder feudal. Nos séculos seguintes, a atividade religiosa começa a adquirir grande vulto e são fundadas várias seitas religiosas, dotadas de poder temporal por serem protegidas por facções da aristocracia.

  No século XII é fundada a escola budista de Drukpa Kagyupa, que continua a ser a forma dominante do budismo hoje. No Butão estabeleceram-se dois ramos, embora antagônicos, da seita Kagyupa.

  A sua coexistência será interrompida pelo príncipe tibetano Ngawang Namgyel que, fugido do Tibete, no século XII, unifica o Butão com o apoio da seita Drukpa, tornando-se o primeiro Shabdrung do Butão, "aquele a cujos pés todos se prostram". Ele mandaria construir as mais importantes fortalezas do país, que tinham como função suster as múltiplas invasões mongóis e tibetanas.

Gelephu - com uma população de 10.703 habitantes (estimativa 2022) é a quarta cidade mais populosa do Butão

  A consolidação do Butão ocorreu em 1616, quando Ngawana Namgyal, lama tibetano, derrotou três invasões tibetanas, subjugou as escolas religiosas rivais e codificou um intrincado e abrangente sistema jurídico, estabelecendo-se como governante.

  Desde sempre que o Butão só mantinha relações com os seus vizinhos na esfera cultural do Tibete (Tibete, Ladaque e Siquim) e com o Reino de Cooch Behar, na sua fronteira sul.

  Com a presença dos ingleses na Índia, no século XIX, e após alguns conflitos relacionados com direitos de comércio, dá-se a Guerra de Duar, em que o Butão perdeu uma faixa de terra fértil ao longo da sua fronteira sul. Ao mesmo tempo, o sistema político vigente enfraquecia por causa da influência dos governadores regionais, que se tornava cada vez mais poderosa. O país corria o risco de se dividir novamente em feudos.

  Em 1907, Ugyen Wangchuck foi eleito como o governante hereditário do Butão, coroado em 17 de dezembro de 1907, e instalado como chefe de Estado Druk Gyalpo (Rei Dragão). Em 1910, o rei Ugyen e os britânicos assinaram o Tratado de Punakha, que prevê que a Índia britânica não iria interferi nos assuntos internos do Butão caso o país aceitasse o conselho inglês nas suas relações externas. Quando da morte do Rei Dragão, em 1926, seu filho, Jigme Wangchuck tornou-se o novo governante.

Samdrup Jongkhar - com uma população de 10.1253 habitantes (estimativa 2022) é a quinta cidade mais populosa do Butão

  Na época da independência da Índia, em 1947, o novo governo indiano reconheceu o Reino do Butão como um país independente. Na década de 1950, o Butão começa lentamente a sair do seu isolamento com um programa de desenvolvimento planejado. O país torna-se membro das Nações Unidas em 1971.

  Em 1972, Jigme Singye Wangchuck ascendeu ao trono, tendo apenas 16 anos. Ele enfatizou a educação moderna, a descentralização da administração, o desenvolvimento da hidroeletricidade e do turismo, além da melhoria de condições no campo. O monarca butanês ficou conhecido por sua filosofia de desenvolvimento chamada de "Felicidade Interna Bruta", na qual acredita que há muitas dimensões do desenvolvimento onde as metas econômicas não são suficientes. Satisfeito com o processo de democratização do Butão, abdicou em dezembro de 2006, em vez de esperar até a promulgação da nova Constituição, em 2008. Seu filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, é o atual rei.

Gangkhar Puensum - ponto mais elevado do Butão

GEOGRAFIA

  O Butão é um país interior, localizado no sul da Ásia. É uma nação montanhosa, encravada nas montanhas do Himalaia. Os picos do norte atingem mais de 7 mil metros de altitude, e o ponto mais elevado é o Gangkhar Puensum, com 7.570 metros. A parte sul do território butanês possui altitudes menores e contém vários vales férteis densamente florestados, que escoam para o rio Bramaputra, na Índia. A maioria da população do país vive nas terras altas centrais. A capital, Timphu, situa-se na parte ocidental destas terras altas.

Wangdue Phodrang - com uma população de 9.722 habitantes (estimativa 2022) é a sexta cidade mais populosa do Butão

  O clima varia de tropical, no sul, a um clima de invernos frescos e verões quentes nos vales centrais, com invernos severos e verões frescos nas montanhas do Himalaia.

  As Montanhas Negras, na região central do Butão, formam um divisor de águas entre dois grandes sistemas fluviais: o Mo Chhu e o Drangme Chhu. Pontos nas Montanhas Negras variam entre 1.500 e 4.925 metros. Caudalosos rios esculpiram desfiladeiros profundos nas áreas mais baixas da montanha. As florestas das montanhas centrais do Butão consistem em florestas de coníferas subalpinas orientais, em altitudes mais elevadas, e florestas folhosas nas proximidades do Himalaia, em altitudes mais baixas.

  O Butão é dividido em três regiões geográficas: o Himalaia, no norte; as colinas e vales do centro; e sopé e planícies ao sul.

Confluência dos rios Mo Chhu (à esquerda) e o Pho Chhu (à direita). O Mo Chhu é o maior rio do Butão

ECONOMIA

  A economia do Butão é essencialmente baseada na agricultura, na extração florestal e na venda de energia hidroelétrica para a Índia. A agricultura, essencialmente de subsistência, e a criação animal são os meios de vida para 60% da população butanesa. A presença de altas montanhas dificulta e encarece a instalação de infraestruturas. É uma das menores economias do mundo, e o país depende consideravelmente da Índia, que lhe fornece ajuda financeira.

  Em janeiro de 2004, o Butão aderiu ao SAFTA (Acordo de Livre-Comércio do Sul da Ásia). No mesmo ano, tornou-se o primeiro país do mundo a banir o fumo e a venda de tabaco.

  Em 2008, devido à retração econômica da Índia, a venda de energia elétrica àquele país teve um decréscimo. Mesmo assim, novos projetos hidrelétricos instalados gerou várias ofertas de emprego e contribuiu para dar sustentabilidade ao crescimento econômico butanês.

Punakha - com uma população de 6.799 habitantes (estimativa 2022) é a sétima cidade mais populosa do Butão

CULTURA

  O Butão possui uma herança cultural rica e única, em grande parte, permanecido intacta devido ao seu isolamento do resto do mundo até o início dos anos 1960. A cultura butanesa é uma das principais atrações para os turistas. Os costumes tradicionais do Butão estão profundamente impregnados em sua herança budista. O hinduísmo também serviu como influência e referência nos costumes de tradição e cultura butanesa, predominantemente nas regiões do sul. O governo butanês vem medindo esforços para preservar e manter a cultura atual e as tradições do país.

  A cultura butanesa já foi definida como sendo, simultaneamente, patriarcal e matriarcal, e o membro que detém a maior estima é considerado o chefe da família. O Butão também já foi descrito como tendo um regime feudal e caracterizado pela ausência de uma forte estratificação social.

  Todos os estados do Butão possuem um festival chamado Tshechu. É um festival de danças e cerimônias religiosas durante um período de dez dias (o nome Tshecu significa "10 dias"), sendo o maior deles o "Paro Tshecu".

Apresentação cultural no Estádio Changlimithang

  A arquitetura do Butão permanece distintamente tradicional, empregando métodos de construção locais, com materiais como acácia, pique, pedras e madeiras, trabalhadas em torno das janelas e telhados. A arquitetura tradicional não utiliza pregos ou barras de ferro em suas construções. Uma característica da arquitetura da região é um tipo de castelo (ou fortaleza) conhecida como Dzong. Desde os tempos antigos, os Dzongs serviram como centros religiosos e seculares de administração para seus respectivos distritos.

  A arquitetura butanesa serviu de inspiração e foi adotada em algumas construções em outros países, como nos Estados Unidos, onde a Universidade do Texas, em El Paso, usou-a como base na construção de seus prédios no campus.

Típica casa butanesa em Paro

  Dentro das festas mais importantes que celebra-se no país, encontra-se a denominada "bendição dos arrozais", com data na primavera. Nessa época, realiza-se uma larga procissão, que leva homens e mulheres a descer da colina até o primeiro campo regado, pois se mantém os outros secos até passar o evento. Uma vez embaixo, os homens tiram as roupas e as mulheres arremessam copos de barro.

  A continuação termina com uma batalha na água, em que ganham as mulheres enchendo aos camponeses do campo, em um gesto que consideram como de boa sorte para uma colheita abundante.

Jakar - com uma população de 6.778 habitantes (estimativa 2022) é a oitava cidade mais populosa do Butão

  Outro costume singular do Butão é a maneira que celebram as bodas. A cerimônia dura vários dias e começa no umbral do dzong, quando a futura sogra recebe a esposa e oferece-lhe a cinta branca augural. A esposa recebe a benção do lama no pátio do dzong e logo dirige-se ao quarto, onde fica esperando o marido.

  Posteriormente, sentam-se juntos ao altar e servem o chá de açafrão e arroz doce. Logo, o lama oferece ao casal, que logo após prová-lo recebe a benção. Depois, cada convidado oferece uma cinta augural ao esposo e outra a esposa.

ALGUNS DADOS SOBRE BUTÃO
NOME: Reino do Butão
FORMAÇÃO: por volta do século VII
CAPITAL: Thimphu
Thimphu vista do lado sul da cidade
GENTÍLICO: neerlandês ou holandês
LÍNGUA OFICIAL: butanês, butanense, butani, butâni
GOVERNO: Monarquia Constitucional Parlamentar
LOCALIZAÇÃO: Ásia Meridional
ÁREA: 47.000 km² (129º) - inclui apenas os Países Baixos. O Reino dos Países Baixos cobre uma área de 42.437 km².
POPULAÇÃO (ONU - Estimativa para 2022): 793.675 habitantes (161°)
DENSIDADE DEMOGRÁFICA: 16,88 hab./km² (203°). Obs: a densidade demográfica, densidade populacional ou população relativa é a medida expressa pela relação entre a população total e a superfície de um determinado território.
CRESCIMENTO POPULACIONAL (ONU - Estimativa 2022): 1,43% (92°). Obs: o crescimento vegetativo, crescimento populacional ou crescimento natural é a diferença entre a taxa de natalidade e a taxa de mortalidade de uma  determinada população.
CIDADES MAIS POPULOSAS (Estimativa para 2022):
Thimphu:124.379 habitantes
Thimphu - capital e cidade mais populosa do Butão
Phuntsholing: 30.031 habitantes
Phuntsholing - segunda maior cidade do Butão
Paro: 12.430 habitantes
Paro - terceira maior cidade do Butão
PIB (FMI - 2021): US$ 2,582 bilhões (163º). Obs: o PIB (Produto Interno Bruto), representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região (quer sejam países, estados ou cidades), durante um período determinado (mês, trimestre, ano).
PIB PER CAPITA (FMI 2021): US$ 3.423 (120°). Obs: o PIB per capita ou renda per capita é o Produto Interno Bruto (PIB) de um determinado lugar dividido por sua população. É o valor que cada habitante receberia se toda a renda fosse distribuída igualmente entre toda a população.
Mapa-múndi mostrando a renda per capita dos países em 2019
IDH (ONU - 2021): 0,666 (127°). Obs: o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é uma medida comparativa usada para classificar os países pelo seu grau de desenvolvimento econômico e a qualidade de vida oferecida à população. Este índice é calculado com base em dados econômicos e sociais, variando de 0 (nenhum desenvolvimento humano) a 1 (desenvolvimento humano total). Quanto mais próximo de 1, mais desenvolvido é o país. No cálculo do IDH são computados os seguintes fatores: educação (anos médios de estudos), longevidade (expectativa de vida da população) e PIB per capita. A classificação é feita dividindo os países em quatro grandes grupos: baixo (de 0,0 a 0,500), médio (de 0,501 a 0,800), elevado (de 0,801 a 0,900) e muito elevado (de 0,901 a 1,0).
Mapa-múndi representando as quatro categorias do Índice de Desenvolvimento Humano, baseado no relatório publicado em 15 de dezembro de 2020, com dados referentes a 2019
EXPECTATIVA DE VIDA (OMS - 2021): 65,79 anos (141º). Obs: a expectativa de vida refere-se ao número médio de anos para ser vivido por um grupo de pessoas nascidas no mesmo ano, se a mortalidade em cada idade se mantém constante no futuro, e é contada da maior para a menor.
Planisfério com a expectativa de vida dos países
TAXA DE NATALIDADE (ONU - 2021): 27,7/mil (58º). Obs: a taxa de natalidade é a porcentagem de nascimentos ocorridos em uma população em um determinado período de tempo para cada grupo de mil pessoas, e é classificada do maior para o menor.
Mapa com a taxa de natalidade dos países
TAXA DE MORTALIDADE (CIA World Factbook 2021): 12,7/mil (41º). Obs: a taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um índice demográfico que reflete o número de mortes registradas, em média por mil habitantes, em uma determinada região por um período de tempo e é classificada do maior para o menor.
TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL (CIA World Factbook - 2021): 24,06/mil (138°). Obs: a taxa de mortalidade infantil refere-se ao número de crianças que morrem no primeiro ano de vida entre mil nascidas vivas em um determinado período, e é classificada do menor para o maior.
Mapa da taxa de mortalidade infantil no mundo
TAXA DE FECUNDIDADE (CIA World Factbook 2021): 1,80 filhos/mulher (153º). Obs: a taxa de fecundidade refere-se ao número médio de filhos que a mulher teria do início ao fim do seu período reprodutivo (15 a 49 anos), e é classificada do maior para o menor.
Mapa da taxa de fecundidade de acordo com o CIA World Factbook de 2020
TAXA DE ALFABETIZAÇÃO (CIA World Factbook - 2021): 62,8% (180º). Obs: essa taxa refere-se a todas as pessoas com 15 anos ou mais que sabem ler e escrever.
Mapa da taxa de alfabetização no mundo em 2020
TAXA DE URBANIZAÇÃO (CIA World Factbook - 2021): 42,3% (144°). Obs: essa taxa refere-se a porcentagem da população que mora nas cidades em relação à população total.
Mapa da taxa de urbanização no mundo em 2020
MOEDA: Ngultrum
RELIGIÃO: estima-se que entre dois terços e três quartos da população do Butão seguem o Budismo Vajrayana (conjunto de escolas budistas esotéricas), que também é a religião do Estado. Cerca de um quarto a um terço são seguidores do hinduísmo. Outras religiões correspondem a menos de 1% da população. O atual quadro legal, em princípio, garante a liberdade de religião. Entretanto, o proselitismo é proibido por uma decisão do governo real e pela interpretação judicial da Constituição.
Mosteiro de Taktsang, um dos símbolos do Butão
DIVISÃO: o Butão está dividido em quatro zonas: Oriental, Sul, Central e Ocidental (atualmente não possuem mais caráter oficial). Para fins administrativos, as zonas estão subdivididas em 20 distritos. Os distritos estão divididos em subdistritos. No nível básico, os grupos de vilas formam um círculo eleitoral chamado gewog e são administrados pelo gup, que é eleito pelo povo. No mapa abaixo, estão as Zonas: Oriental (azul), Sul (rosa), Central (amarelo) e Ocidental (verde). Os distritos estão numerados de 1 a 20: 1. Bumthang, 2. Chukha, 3. Dagana, 4. Gasa, 5. Haa, 6. Lhuntse, 7. Mongar, 8. Paro, 9. Permagatshei, 10. Panakha, 11. Samdrup Jongkhar, 12. Samtse, 13. Sarpang, 14. Timphu, 15. Trashiygang, 16. Trashiyangste, 17. Trongsa, 18. Tsirang, 19. Wangdue Phodrang, 20. Zhemgang.
Mapa com a divisão administrativa do Butão
FONTES:

Brasil Escola: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/butao.html

Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Butão

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

A "ERA DE OURO" DO CAPITALISMO: A CONSTRUÇÃO DO ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL

   O capitalismo é um sistema econômico baseado na propriedade privada, na acumulação de capital e na procura pelo lucro. A obtenção do lucro e a acumulação do capital dentro do capitalismo dão-se por meio da posse privada dos meios de produção, que pode manifestar-se pela posse da terra ou de grandes instalações que permitam a produção de certa mercadoria.

  O capitalismo surgiu em um processo muito longo, que se iniciou na transição histórica para a Idade Média Moderna e no desenvolvimento do mercantilismo, entendido por muitos como a etapa inicial do capitalismo comercial. A consolidação desse sistema econômico ocorreu no século XIX, com o desenvolvimento da indústria por meio da Revolução Industrial.

Um pôster da Industrial Workers of the World (1911), mostrando a Pirâmide do Sistema Capitalista

A "era de ouro" do capitalismo

  Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo vivenciou uma espécie de Terceira Guerra - a Guerra Fria, que dominou o cenário internacional da segunda metade do século XX, até a queda do muro de Berlim. Por um longo período a humanidade se viu na iminência de uma outra tragédia nuclear, no âmbito do tensionamento ideológico entre os Estados Unidos e a URSS, mas que não correspondia necessariamente à situação mundial objetiva.

  A experiência da guerra tinha sido devastadora para as economias dos países capitalistas que haviam se envolvido nela, e eles buscavam uma saída comum para a crise por meio de práticas que regulassem o mercado internacional. A Conferência de Bretton Woods foi um passo decisivo nesse sentido. Em 1º de julho de 1944, 44 países reuniram-se nos Estados Unidos com o objetivo de repensar a economia mundial. Essa reunião resultou no Acordo de Bretton Woods.

Reunião que selou o Acordo de Bretton Woods

  Com uma inflação entre 200% e 400%, o lucro dos Estados Unidos foi enorme, pois vendiam produtos "com valor corrigido pela inflação em troca de ouro com valor congelado", promovendo uma enorme transferência de ouro para o país. Com o objetivo de garantir a reconstrução europeia e o seu desenvolvimento, as novas instituições criadas no Acordo de Bretton Woods - o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (Bird) - passaram a ser uma espécie de fiadoras dessa reconstrução.

  Após o período inicial de crises pós-Segunda Guerra Mundial, houve uma fase de expansão contínua do capitalismo, que foi denominada por muitos estudiosos de "a era de ouro" do capitalismo. Segundo Eric Robsbawm (1917-2012), o período entre 25 e 30 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial foi marcado por "extraordinário crescimento econômico e transformação social", "anos que provavelmente mudaram de maneira mais profunda a sociedade humana que qualquer outro período de brevidade comparável". Esse período teria durado até o início da década de 1970, quando se iniciou uma nova era, "de decomposição, incerteza e crise - e, com efeito, para grandes áreas do mundo, como a África, a ex-URSS e as partes anteriormente socialistas da Europa, de catástrofe".

Andar dos operadores da Bolsa de Valores de Nova York, em 1963

  O grande crescimento econômico conduziu a uma economia praticamente única, mundial, cada vez mais integradora, transnacional, para além das fronteiras políticas dos Estados. Essa situação relativamente estável durou até meados dos anos 1970, quando o sistema internacional entrou num período de crises de natureza política e econômica que se estendeu pelas décadas seguintes, afetando várias partes do mundo, ainda que de modos e graus diferentes, gerando problemas de desemprego generalizado, enorme desigualdade de renda e graves crises econômicas.

  Até esse momento a divisão desigual do mundo tinha sido administrada numa perspectiva de se evitar o choque armado entre Estados Unidos e URSS, e a Guerra Fria era tratada como uma espécie de Paz Fria, ainda que fora dos poderes de decisões fundamentais que poderiam levar ao confronto bélico, as disputas continuassem a ser travadas. O armamento nuclear da URSS logo no início do pós-guerra e de outros países como China, Israel, África do Sul e França (dentro de uma política de corrida armamentista), confrontados com a potência nuclear estadunidense, parecia fazer de uma nova guerra uma impossibilidade, pelo caráter suicida que envolvia qualquer potência que deflagrasse uma nova guerra. Contudo, a ameaça nuclear era uma realidade que dominava o mundo, e por vezes pareceu estar muito próxima da realidade, como em 1962, por ocasião da crise dos mísseis cubanos.

Fotografia aérea mostrando base de lançamento de mísseis em Cuba, novembro de 1962

  O período de desenvolvimento da economia mundial entre os 25 e 30 anos  do pós-Segunda Guerra Mundial teve os Estados Unidos como o país mais rico, ainda que não tenha se desenvolvido tanto economicamente em relação a como era antes da guerra. Esse desenvolvimento se operou de forma muito mais expressiva nos outros países, com maiores taxas de crescimento em relação à sua realidade do pré-guerra.

  A era de ouro é caracterizada pelo avanço das pesquisas científicas em relação ao período precedente, que modificou significativamente a vida das pessoas, com mais desenvolvimento e novos meios de comunicação, mudanças no sistema de produção de alimentos e no consumo e na produção da indústria de máquinas e da indústria farmacêutica. Os processos de produção em diferentes áreas, passaram a ser cada vez mais mecanizados e a contar cada vez mais com novas tecnologias, que aumentaram a quantidade de produtos, ao mesmo tempo em que se diminuiu cada vez mais a necessidade de pessoas nos processos produtivos, evidenciando as contradições do sistema. Esse período ficou marcado pela reestruturação do sistema capitalista, pelas moedas estáveis, pelo livre-comércio, pela movimentação de capitais e pelos avanços de sua internacionalização, numa economia capitalista mundial que se desenvolveu em torno dos Estados Unidos.

Mapa das rotas aéreas comerciais de todo mundo no mundo atual

O Estado de bem-estar social

  As transformações do capitalismo após o Acordo de Bretton Woods, permitiu, em princípio, a ação dos Estados para o desenvolvimento e a consolidação de um sistema de proteção que se convencionou designar de Welfare State - Estado de bem-estar social.

  As demandas sociais, face às instabilidades e aos problemas gerados pelo capitalismo em seu processo de expansão, levaram a uma participação maior dos Estados nas economias mediante a criação de políticas públicas fiscais e monetárias e serviços, com vistas à proteção social em diferentes frentes: combate à pobreza, melhores condições de trabalho, direito à saúde, à educação e garantia de emprego, por exemplo.

  O Estado de bem-estar social, em sua concepção, agregava aspectos relacionados à provisão, pelo Estado, de direitos individuais e coletivos, como liberdade, igualdade e justiça social, e esteve ligado aos países capitalistas do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa, ainda que tenha também se desenvolvido em outras localidades do globo com maior ou menor intensidade à época.

  A intervenção estatal, por meio da promoção do Estado de bem-estar social,  fez-se acompanhar de uma intervenção mais efetiva do Estado na economia, como instância reguladora das atividades produtoras, com vistas à geração de recursos para a manutenção das garantias sociais.

  A chamada "era de ouro" viu florescer no seu auge, por volta dos anos de 1960, o ápice do Estado de bem-estar social (favorecido pelos investimentos estadunidenses no pós-Segunda Guerra), que entrou em crise nas décadas seguintes, pelos desdobramentos dos problemas gerados pelo desenvolvimento do capitalismo.

  A grande questão a partir de então era qual seria o papel do Estado: amplo, garantidor das proteções sociais; ou mínimo, legando essas proteções à iniciativa privada e às regulações do mercado. O Estado de bem-estar social, apesar de suas inegáveis conquistas, pode ser entendida como uma espécie de "pacto" do pós-guerra, pelo qual a capacidade de mobilização da classe trabalhadora foi fragilizada, propiciando certo estado favorável para a expansão capitalista. Para muitos estudiosos, o Welfare State somente busca resolver os problemas criados pelo próprio sistema capitalista.

Charge ironizando o Welfare State (Estado de bem-estar social)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

REGONI, Glória. Estado de bem-estar. IN: BOBBIO, Norberto et. al. Dicionário de política. 11. ed. Brasília: Editora UnB, 1998.

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